Páginas

quarta-feira, 8 de agosto de 2007

Esfinge


E de lá de cima olhava todos com aquele olhar de quem não se importa.
De dentro daquela redoma de cristal muito bem lapidado, colocada sobre um pedestal colossal de puro granito esculpido a mil mãos.
Mãos estas, que ela fez suas cabeças pra que sempre a venerassem.
Tinha um coração de material delicado, coberto com uma textura que imitava aço.
Talvez pra intimidar aqueles que ousassem pensar em ali adentrar.
Uma boneca de fina porcelana, fantasiada de noiva do Chuck para afastar os “caçadores de alma”, como ela mesma dizia daqueles que mostravam interesse por sua pessoa.
E ali embaixo muitos admiravam, muitos a execravam e muitos tonteavam entre o execrar e o admirar num eterno não entend-la.
Mas isto também aumentava o fascínio e ela sabia e se deliciava com isto.
Uma espécie de esfinge por certo.
Muitas vezes num impulso incontrolado onde deixava a emoção, algo que ela não manejava com destreza, tomar por uma fração de segundo a razão, seu habitat natural, se via gostando dos sentimentos bons que chegavam a ela.
Era quando ela se enfurecia, utilizava então seus enigmas indecifráveis lançando ao fogo aqueles que ousaram penetrar seu desconhecido.
E quando todos ficavam pasmados com sua crueldade e força, era a sua hora de maior fraqueza.
Subjugava para não ser.
Medo?
Não sei.
Crueldade?
Duvido.
Sei não sou dado a enigmas, portanto não ouso tentar desvendá-los, mas confesso que várias vezes passei perto de ser lançado ao fogo.
Nestas horas passava em meu pensamento, erguer-me em um palanque a sua frente e gritar um discurso elaborado com todas as coisas horríveis que minha imaginação pudesse criar a seu respeito.
Mas após a convulsão de ira pensava...
Por que caminhos estes pés trilharam para agir assim?
Quais infortúnios vividos?
Pois sempre senti que sua essência não era aquela.
E voltava a me questionar...
Porque não demonstrar seu lado melhor?
Como nunca obtive respostas, uma voz sempre me dizia...
Apenas aquele que sente a dor, sabe o que deve fazer para aliviá-la.
Então me pego amarrando, com sete nós e um laço bem bonito para disfarçar o esforço, meus instintos mais perversos.
Para que eu sem base para análise não fique tentado a julgar.
Pois se há uma coisa que sei é sentir.
E sinto que tanto dentro de mim quanto dela e de todo mundo mora um anjo que um dia deixaremos voar.
E falo só porque sinto, não falo para agradar.
Pois nunca acharei que um anjo mereça um altar.


Ayahuasca



Nenhum comentário: